Terça-feira, 25 de Abril de 2006

Eduardo Félix - 5ºC

JANELA ABERTA


     Era uma vez uma janela muito bonita, não é que fosse mais bonita que as outras, mas era bonita. Esta janela do convento tinha uma ombreira castanha, trabalhada num estilo muito, muito antigo. O vitral era tão colorido que o tornava ainda mais fantástico que a ombreira. Aquela janela do tal convento chamava-se Marta. A janela via um lindo espaço coberto de zonas verdes, que se misturavam com as muitas colinas à sua frente e lá mesmo no cimo, avistava-se uma grande casa: a escola do quinto, sexto, sétimo, oitavo, nono, décimo, décimo primeiro e décimo segundo anos. Marta, a janela, gostava muito do sítio onde estava, do que via e do que ouvia.
     Ela era alegre e feliz porque, todos os dias, observava os meninos que vinham da escola com as suas mochilas pesadas às costas e as suas caras preocupadas, enquanto pensavam numa maneira de mostrar os recados que, por vezes, traziam na caderneta. Não eram todos, alguns deles até eram bem “comportadinhos”. A Marta ficava mesmo muito triste quando algum dos meninos a insultava, porque era uma janela muito especial. A janela costumava estar sempre aberta, nem de noite a fechavam, mas ela não se importava, porque assim os seus olhos podiam ver, com menos dificuldade, os carros e os adolescentes que vinham da discoteca, muitos deles embriagados.
     Um dia, um menino estava a fazer grafites na sua ombreira quando a Marta disse com a sua voz fininha:

     - Porque estás tu a fazer essas coisas na minha linda ombreira castanha e trabalhada num estilo muito antigo?

     -O quê?! — Disse o menino com uma cara muito pálida. - Tu falas?

     -Claro que falo, não estás a ver que sim!? Tal como tudo na vida, nós as janelas falamos. E tu, não falas?

     -Sim, eu falo mas as minhas janelas não. Só uma pergunta...

     -Então qual é a tua pergunta? Pareces-me muito interessado.

     -Eu só queria saber se as minhas janelas também falam como tu.

     - Não sei. Tu é que tens que ver, vai ao quarto e tenta falar com elas para ver se te respondem e amanhã dizes-me.

    -Está combinado. Até amanhã! - disse o rapaz muito feliz por ter conhecido uma nova amiga.
     Quando o menino já ia a meio da rua, a Marta lembrou-se que nem sabia o nome do menino, então chamou:

     - Ó menino!!!

     O rapaz muito assustado olhou para trás, porque não estava mais ninguém na rua àquela hora, mas se estivesse a Marta não podia gritar assim, pois ninguém acreditaria que ela pudesse falar.
     O rapaz voltou-se e a Marta perguntou-lhe:

     - Nem sei qual é o teu nome, como te chamas?

     -Chamo-me Rui e tu como te chamas?

     - Eu sou a Marta - disse a janela com a sua voz melodiosa como a de um rouxinol.

     - Então, até amanhã! - disse o rapaz muito curioso para saber se as janelas dele falavam.

     No outro dia de manhãzinha, antes do galo cantar, toda a cidade estava a dormir excepto a Marta e o Rui, ansiosos por se voltarem a encontrar.

     Finalmente chegou a hora da janela e o rapaz se verem. Quando as aulas acabaram, o Rui foi ter logo com a janela e disse:

     - Mentiste, disseste-me que as minhas janelas falavam e elas não falam.

     - Rui, queres mesmo saber porque é que elas não falam contigo?

     - Gostava!

     - Antigamente as janelas e as pessoas davam-se todas bem, mas um terrível dia, houve uma janela que se zangou com o seu parceiro de quarto e desde então ninguém acredita que nós falamos.
     O menino ouviu muito atento a história e perguntou intrigado:

     -Que pena! Mas porque estás aberta, todos os dias? Não tens frio? Eu que sou tão friorento, faz-me confusão...

     -A ti, faz-te confusão porque não estás habituado. Imagina que te fechavam o dia todo e que não podias ver nem ouvir nada, ou então imagina que te estão constantemente a sujar e a embaciar. Tu gostavas?

     - Não gostaria, isso é verdade.

     - Rui, vou contar-te um segredo. Mas promete-me que não vais contar a ninguém.

     - Eu prometo, mas conta lá o teu segredo.

     - Vamos fazer um negócio...

     - Qual é esse negócio?

     - Espera que eu já te digo.

     Passados cinco minutos a janela afirmou:

     -Também tens que me contar um segredo teu, está bem?

     - Amiga janela não sei nenhum segredo que te possa contar, mas adorava saber o teu.

     - Eu conto-te mas tens que prometer que quando te lembrares de algum me vens a correr dizer, está bem amigo?

     - Sendo assim negócio fechado!

     - Há dois dias, sem querer, ouvi uma conversa entre duas freiras que diziam que o convento ia ser vendido pois não tinham dinheiro... Basicamente foi isto que eu ouvi.

     - Sendo assim, amiga Marta poderá acontecer uma coisa terrível.

     - Mas o que de tão terrível poderá acontecer?

 

     - Amiga janela se venderem este convento, tu passas a pertencer a outras pessoas.

     - Mas o que tem isso de mal? Pode ser que as novas pessoas sejam muito simpáticas e que tratem bem de mim.

     - Pode ser, mas também pode ser que os teus novos donos te fechem para sempre e que nunca mais possas ouvir nem ver.

     - Que horror! Só estava a pensar no lado bom! Nunca me tinha passado pela cabeça o que tu acabaste de mencionar...

     Nessa noite a janela não pregou olho, esteve sempre a pensar o que lhe iria acontecer no futuro.

     No dia seguinte a Marta ouviu outra conversa. Desta vez, não era só entre freiras também incluíam padres. Eles realmente não tinham nem mais um tostão, precisavam de dinheiro e teriam que vender definitivamente o convento que tinha sido tão especial. Ninguém gostava de se desfazer daquele espaço onde houvera muitas festas e acontecimentos religiosos.
     A janela estava horrorizada e quando viu o Rui, contou-lhe tudo. Fez-lhe milhares de perguntas, às quais ele não lhe poderia responder, pois eram sobre os novos proprietários do convento.
     A notícia depressa se espalhou por toda a aldeia. Não se falava em mais nada e toda a gente queria comprar o belo convento. Imensas pessoas estavam interessadas, mas só uma o poderia comprar.
     Foi então que o Rui teve uma grande ideia: todos os habitantes da aldeia podiam juntar as suas poupanças e comprar o convento. Assim teriam a certeza que o velho edifício pertenceria a toda a gente!
     Desta forma, as freiras continuavam a ter onde morar e os habitantes da aldeia podiam continuar a comer aqueles doces maravilhosos feitos por elas! Doces conventuais!

     Toda a aldeia ficou contente com a solução. No dia da escritura, toda a gente assinava os papéis cheios de lágrimas nos olhos, tal era a felicidade e emoção!

     Nesse dia, houve uma grande festa no pátio do convento. Estavam lá todos, menos o Rui que comemorou com a sua amiga janela.

Publicado por ML às 16:58
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Imagem criada a partir de uma pintura de Kandinsky.

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