Terça-feira, 25 de Abril de 2006

Ana Ferreira-5ºH

JANELA ABERTA


     É mais um daqueles dias de Primavera ensolarados, em que eu regresso da escola. O céu está azul, o sol brilha, as andorinhas voam por cima dos telhados. Um dia ideal para brincar.

     De manhã tive aulas.

     Hoje na escola, houve reunião de pais e professores e a mãe tomou conhecimento das minhas notas. Soube que eu tive quatro negativas. Este 5° ano está a ser difícil! Não entendo porque temos de saber tanta coisa. Tenho de saber como é que os ingleses falam, saber o que aconteceu há quinhentos anos e resolver problemas de Matemática. Depois vem a Música, depois a Natação, o Ballet, e tudo mais o que tenho que aprender. Gostava que alguém inventasse a escola da brincadeira, tenho certeza que tinha a nota máxima em todas elas.

     Será que a mãe me vai dar o mesmo castigo de sempre?

     Estou a chegar a casa.

     - Ana, és uma menina de dez anos, tens que estudar mais. Não podes pensar só em brincar, deves ter responsabilidade nos teus estudos, vai já a para a janela!

     -Já para a janela! Disse minha mãe, levantando um pouco a voz.

     - Sim, estou a ir! - Respondi eu, um pouco, contrariada.

     Vou tanta vez para esta janela. É a janela do meu quarto. É branca, de alumínio, tem dois vidros grandes e cortinados cor-de-rosa, igual à colcha que está em cima da cama. Para minha sorte, é virada para a avenida principal da Vila, e daqui posso avistar o Mundo. No parapeito tenho duas bonecas que são a minha companhia. Recebi-as de presente este Natal. Foi a vizinha Cecília que mas deu. Foram as únicas bonecas que recebi. Já não me dão brinquedos. Acham que sou demasiado crescida. Talvez tenham razão, mas não consigo deixar de brincar.

     Quando me porto mal, a mãe põe-me de castigo nesta janela, mas a Ritinha e a Zizi não estão de castigo. Assim sabem de tudo, o que se passa nesta rua. De manhã até à noite, observam todas as pessoas que caminham nela, uns vão apressados, devem ir trabalhar; outros mais idosos e sem muito para fazer, vão devagar.., o tempo já não os incomoda. Às vezes há brigas: os homens bebem demais e deixam de se entender.

     Ouvem os segredos, os mexericos que as vizinhas contam umas às outras, isto quando não relatam as histórias inteiras das novelas.

     Mas o que elas vêem de mais importante são todos aqueles meninos que brincam no parque infantil da Vila.

     Coloquei as minhas amigas neste parapeito, para elas verem todas as brincadeiras que ocorrem e depois me contarem.

     -Olha Ritinha! Vem ali o Sr. João, deve ir para a sua sapataria, a loja onde a mãe compra os meus sapatos. E atrás dele vem a avó da minha amiga Patrícia. Onde irá? — Perguntei num tom baixinho para

a minha mãe não ouvir.

     -Hum! Entrou no talho do Sr. Joaquim. Hoje há bifes para o jantar da Patrícia.

     -Continuei. Ela vive com avó. O pai e a mãe estão sempre a viajar. Se eu vivesse com a minha avó,

será que também vinha para a janela?

     -Olha Zizi, diz adeus minha amiga Madalena. — Disse eu, pegando na mão dela.

     -Olá Madalena! Onde vais? — Perguntei com voz de boneca.

     -Oh! Vais para o parque! Eu gostava tanto de ir contigo. Íamo-nos divertir tanto.

     Bem, Tu sabes... tenho de ficar outra vez à janela. — Continuei eu. — Sim.

     Tive quatro negativas. Não consigo ficar quieta com aqueles livros, quando tenho tantas coisas para

brincar. E um desperdício de tempo. Não percebo porque temos de aprender aquilo tudo?

     -Tens razão. Se tivesse estudado, ia agora contigo para o parque. Adeus — Disse eu despedindo-me

dela com umas lagrimazitas marotas no canto dos olhos.

     Não posso ficar triste, tenho a minha janela, e dela posso ver e viver tudo. Vejo os passarinhos que voam de árvore em árvore no parque. A vida deles é livre, sem regras, sem exigências, sem castigos, simplesmente vivem. Quando precisam de comer, procuram-no e comem, quando querem cantar é só abrir o bico e sua voz sai. Sim! Porque a eles ninguém os manda calar. E podem estar o tempo que quiserem sobre as árvores do parque. Como eu gostava de estar a brincar no parque. Mas daqui, da minha janela, só o vejo.

     A Madalena está a andar de baloiço, para a frente e para trás, cada vez mais rápido. Seus cabelos claros voam com o vento. Ela é muito boa aluna, a melhor a matemática. Neste primeiro período teve um

quatro, porque a professora não dá cincos de início, mas neste segundo período acreditamos que o vai ter.

     -Ritinha. Acreditas que a Madalena, nos intervalos das aulas, o melhor tempo que a escola tem, vai para a biblioteca estudar? — Perguntei à espera que a minha imaginação respondesse.

     - Mas, agora, sabes o que ela está a imaginar? Deve-se sentir uma acrobata, voando num baloiço suspenso... Por isso ela sorri. Deve imaginar que voa, que roda, que salta de baloiço em baloiço, sempre a voar. Por isso, ouve os aplausos, dobra os joelhos para a frente e para trás dando balanço novamente.

     -Prossegui com um olhar saudoso de brincadeira.

     -É Zizi! O parque está a transformar-se num circo.

     Não vês, Zizi? O Ruben e o seu irmão mais novo estão andar nos cavalinhos. Para eles são cavalos

selvagens que tem que domar. Um é castanho com uma mancha branca no pescoço e o outro é todo cinzento. Vão conseguir. Os cavalos estão a levantar a pata direita, para agradecer ao grande público. O

cavalo cor-de-rosa está sozinho, ninguém o quer, devido à cor, ninguém brinca com ele ou seja ninguém

o doma. Está sempre á minha espera. É o meu cavalo preferido! Quando o monto, fica tão contente que

galopa mais que os outros, nenhum outro o apanha. — Disse eu, acariciando — lhe o seu cabelo de lã –

ali, no escorrega amarelo está a Cheila. Tem uma roupa nova, uma t-shirt e umas calças azuis, da cor

do mar. O cabelo está apanhado com um elástico, também ele azul.

     Ela é muito bonita, mas tal como eu não gosta de estudar. E a minha companheira de carteira em algumas disciplinas. Ficamos sempre na última fila da sala, assim podemos fazer desenhos, olhar a rua, sem que a professora tome conhecimento. Ela, quando crescer, vai ser cabeleireira, não vai precisar de saber os determinantes, muito menos quem foi o último rei de Portugal, e a comprida história da fada Oriana. Tem que aprender é a usar tesouras, para cortar o cabelo direito, e não como eu vejo alguns com pontas acima e outras abaixo. Pois. É a moda. Hoje é moda cortar o cabelo torto, é moda as crianças ficarem todo o dia na escola, é moda para quem não gosta da moda, ficar de castigo.
     -Zizi, achas que a Cheila se vai atirar da prancha de dez metros para a piscina? Olha! Está-se a preparar. Já está a subir as escadas, chegou ao escorrega, ou seja à prancha. — Continuei, agora segurando-a no meu colo.

     -Vejam,  atirou-se. Está a descer com muita velocidade. Os seus pés batem na areia, isto é na água da piscina. — Disse eu, dirigindo-me às minhas amigas. Será que vai aos Jogos Olímpicos? Será que vai ser escolhida para representar Portugal. Talvez traga a medalha de prata, ou então a de bronze. Se

não conseguir, paciência. Que concorra, Que faça o seu melhor, porque ninguém a vai castigar, ninguém a vai pôr à janela.

     No parque há um castanheiro, a árvore que faz sombra ao” Banco da Terceira Idade”. E esse o nome que lhe atribuíram. Nele sentam-se as pessoas com mais idade, depois de darem as suas caminhadas. Todos os dias o Sr. José Félix e a sua companheira a Sra. Joaquina descansam nele. Não podem andar muito rápido, têm problemas nos joelhos, coisas da velhice. Na semana passada, na mercearia da Esquina, ouvi a Sra. Joaquina dizer que o médico a tinha proibido de comer carne, doces e fritos, alimentos que agravam a sua doença. Mas, então o que vai ela comer? - Pensei eu. Ainda bem que só tenho dez anos, e não preciso de fazer essas dietas. Assim como é que comia os hambúrgueres e as batatas fritas? E o salame como sobremesa?

     - Olhem amigas! O Daniel está a sair dos baloiços, Já fez todos os triplos mortais com a Madalena. Deve ir para casa? Tem de estudar. A escola tem um quadro chamado “Quadro de Honra”, onde são aplicadas as fotografias e o respectivo nome dos melhores alunos. Não se pode ter nenhuma negativa, nem nenhum três. O Daniel entrou com vários cincos e quatros. Tem de estudar muito, por isso vai embora, não pode continuar no parque. Ele vai ser médico como o seu pai e mãe. Tem que aprender a lidar com as pessoas e com as dores delas, tem de saber dar uma palavra de esperança para a cura de cada um. Uma profissão difícil! Eu não sei o que vou ser quando crescer, ainda é cedo para decidir essas coisas, mas podia ser fabricante de bonecas de trapo, loiras como a Zizi e ruivas como a Ritinha, ou então professora da nova disciplina “Disciplina Brincar”. É que com tantas ocupações que se dão às crianças, um dia destes têm que inventar a “Ocupação Brincar”, ajudar a criança a ter imaginação. Se não for estas duas, não sei o que mais ser.

     No recanto do parque, por trás dos escorregas, está o João Oliveira e o Pedro a brincar aos berlindes. É a brincadeira preferida deles. Têm razão para isso. Os berlindes são lindos, de todas as cores. Podemos imaginar cada berlinde como um planeta, e toda a nossa brincadeira, como um grande sistema solar. E eu? A que iria brincar?

Eu? Queria fazer tudo! Ser uma acrobata, sentir-me voar, de baloiço em baloiço, ouvir os aplausos do público e sorrir. Domar cães, tigres e leões ferozes e selvagens, fazendo-os obedecer à minha voz. No meu cavalo cor-de-rosa galopar sem fim, correr prados e montanhas. Do grande escorrega amarelo, atirar-me e mergulhar nas águas límpidas da piscina, tornando-me uma nadadora. Por fim, brincar aos berlindes, saltando de planeta em planeta, até encontrar o “Planeta das Crianças”, e nele brincar a tudo aquilo que a minha imaginação tiver.

     -Ana! Ana, vem jantar, já podes sair do castigo. — Disse a minha mãe.

     -Adeus, Zizi e Ritinha. Acabou-se o castigo, não tenho de ficar mais nesta janela. Vou fechá-Ia.
     -Filha, sabes o quanto é importante estudarmos, faz um esforço. É bonito aprender. Saber ler e interpretar histórias, fazer cálculos que nos ajudam no dia-a-dia. Além daquilo que se aprende, é aquilo que se vive. A escola é a tua primeira vida, ensina-te a relacionar com o mundo e a enfrentares as dificuldades que ele tem. Neste momento, tens uma. A escola rouba-te o tempo do brincar, mas na vida vais descobrir que muitas outras coisas te vão roubar o tempo daquilo que gostas. Mandei-te para a janela, para poderes estar sozinha. E compreenderes que a vida te dá alguns desafios, que os tens que vencer. Esse é um dos objectivos da vida. Agora vai dormir, que amanhã é um novo dia.
     A minha mãe tem razão, tenho que aprender a gostar da escola e de tudo o que ela me ensina. Vou fechar os olhos e dormir, e que amanhã esteja novamente um dia de sol. Um daqueles dias que convida a brincar...

Publicado por ML às 19:28
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Imagem criada a partir de uma pintura de Kandinsky.

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