Terça-feira, 25 de Abril de 2006

Daniel Alexandre Lourenço -5º H

 

Janela Aberta

     Tudo começou quando, numa noite muito escura, recebi a triste notícia de que tinha sido suspenso devido ao meu comportamento durante os últimos dois meses e desobediência às pessoas que só me queriam ver feliz.

     Dia após dia, os meus amigos foram escasseando até ficar totalmente desamparado. Era como se estivesse a ser empurrado de uma falésia abaixo.

     Absoluta das coincidências era que o sentia na pele. Embora algumas pessoas digam que a escola é uma perda de tempo, eu discordo completamente, mas quando temos a hipótese de aprender, estamos sempre a fugir tanto ao nosso trabalho como às nossas responsabilidades. Os dias foram passando e a situação continuava num estado lastimável... Sempre que tentava telefonar aos meus antigos amigos, eles não atendiam (de certeza que andavam a tentar ignorar-me).

     No dia seguinte ao olhar lá para fora, através da janela do meu quarto, apercebi-me de que ali se encontrava não uma janela mas sim um guarda-roupa. Ao espreitar lá para dentro, dei conta de que ali se encontrava um local encantado e cheio de fantasia, que mais parecia um autêntico paraíso. Eu tinha noção de que tudo ali era falso, mas agradava-me a ideia de comprar doces que limpavam os dentes automaticamente e a custo zero.

     Nas duas semanas que se seguiram, escapei-me das minhas tarefas diárias para lá passar todos os dias duas esplendorosas horas, mas quando voltava, o tempo estava no mesmo tédio que há duas horas atrás.

     Então, decidi avisar os meus antigos amigos (talvez até recuperasse a amizade deles). Determinado a telefonar-lhes, peguei no meu telemóvel e tentei...

     Decorridos quinze minutos de tentativas sem êxito, lá consegui:

     - Olá Miguel!! Olha, por acaso não queres vir cá a minha casa ver uma coisa que nem vais acreditar?

     -Tu próprio o disseste, se não vou acreditar, nem sequer me aproximo daí, adeus.

     Bem, posso voltar a tentar... (pensei eu).

     -Olá Susana, queres vir ver uma coisa ... errr... engraçada?

     -Olha, vou já meter tudo em pratos limpos. Quando éramos amigos, tu não te metias nestas confusões mas desde há cerca de dois meses, andas muito aluado. Tenho muito que fazer, por isso, adeus.

     Se nem os meus antigos melhores amigos me apoiavam, estava em muito maus lençóis. Nessa tarde, aprendi uma lição importantíssima que tão cedo não vou esquecer. Lição essa que me diz que devo avaliar muito bem o que digo e como o faço.

     No dia seguinte, reparei que ao meu lado estavam o Miguel e a Susana:

     - Então Daniel, o que é assim tão espantoso?

     - Aquilo....

     - Aquilo o quê?

     - Então, aquele armário, vocês não vêem?

     - Ainda nem te levantaste da cama e já começas a mentir? — resmungou ela, de um modo agressivo.

     - Não é mentira, eu juro!

     E, sem mais nem menos, viraram costas, e fecharam a porta num estrondo imenso - até me começava a habituar sabem?

     Dias depois, nem sequer me conseguia olhar ao espelho. Como me poderia ter acontecido uma coisa daquelas? Eu, um rapaz tão normal como tantos outros. Será que por aquele guarda-roupa ser um objecto mágico (de certeza de que o era), não se mostrava a mais ninguém a não ser àquele que primeiro o descobrira? Tudo indicava que sim. Que consequências traria o tal armário para a nossa Ciência? Seria ele um malefício e tornar-se-ia um vício ou um benefício e conseguiria fortalecer as nossas descobertas até então? - para estas duas últimas perguntas, ninguém possuía a resposta. Mas, como diz o ditado, “depois da tempestade vem a bonança”...

     Comecei a pensar e a mentalizar-me de que alguma coisa espectacular se iria suceder.

     Como se fosse vidente, acertei em cheio. Ao verificar o correio apercebi-me de que se encontrava

lá uma carta dirigida à minha pessoa.

 

     “Excelentíssimo senhor:

     Foi-nos fornecida a informação de que tem capacidade de realizar fantásticos trabalhos sobre Ciência. Por essa razão o convidamos para a anual feira da Ciência Juvenil, que irá ter lugar a 17 de Abril, às16 horas, no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa.

     Gostaríamos realmente que participasse neste concurso.

                                                             ASS: Alfredo Costa.

                                                             Presidente da Comissão da Ciência Juvenil”

 

     - Que bom!! — eu sabia que algo de muito bom iria acontecer. Mas, o que irei levar para o concurso? Bem, penso mais tarde. Agora está na hora da minha regular visita ao guarda-roupa.
     Assim, sem pensar no grande trabalho que iria ter ao fazer aquele projecto, fui correndo apressado para uma visita. Visita essa que duraria duas horas, no meu guarda-roupa.

     Sempre que saía do meu «Paraíso», sentia-me alegre e feliz. Parecia que toda a minha infelicidade desaparecera. Mas, na verdade, ela continuava dentro de mim. O facto de eu, naquela altura, não ter amigos era culpa do guarda-roupa. Sempre que possível, tentava comportar-me e achar-me um rapaz normal, como tantos outros, mas, tal, era completamente impossível.

      Agora eu devia concentrar-me no que levar para o concurso de Ciências Juvenil. Passara-me pela cabeça levar o guarda-roupa comigo (talvez até fosse a melhor ideia) — mas e se ele não se mostrasse às outras pessoas presentes, como já tinha acontecido?

Tinha sido ele o meu melhor amigo desde que eu fora suspenso. E o guarda-roupa não tinha tido culpa nenhuma disso. Talvez se eu ganhasse o concurso, me pudessem aliviar a suspensão.... porque, terem-me convidado já deveria significar alguma coisa.

     Depois dessa tarde, como já só faltava uma semana para o concurso, eu lá voltei a ponderar a hipótese de levar o guarda-roupa como meu projecto. Estava eu a tentar tapá-lo com uns trapos feitos de tecido, para o conseguir levar para o concurso sem que ninguém o tomasse como aquilo que era (um guarda-roupa mágico), quando ele começou a levitar alguns centímetros acima do solo. O objecto dirigia-se ao hall de entrada para sair pela porta central. Pior para mim, a porta estava aberta porque o meu pai fora buscar o correio. Assim, foi impossível não esbarrarem os dois:

     - O que é isto, filho? — interrogou o meu pai, com uma voz muito autoritária.

     - Olá pai!... Então... Isto é o meu projecto para o concurso da Ciência Juvenil. -respondi eu.

     - Sim, mas o que está por debaixo destes trapos de tecido? - voltou a questionar o meu pai.

     - Já disse e volto a repetir: é o meu projecto para o concurso da Ciência Juvenil.

     - Daniel... — retorquiu o meu pai — não estás lá em muito boa posição de andar a brincar com as outras pessoas, como andaste a fazer no período escolar, ou numa parte dele... Não sei se me fiz entender?

     - Sim, pai, fez-se entender — resmunguei eu.

     - Muito bem. Então, se me fiz entender, é melhor que não pises o risco. Ou então terei de adoptar novos métodos de educação, já que estes não estão a resultar na perfeição, e, nem perto disso. Estamos conversados?

     Sim, pai — resmunguei eu novamente.

     Ao ver o meu pai afastar-se, disse de mim para comigo: “Só queria saber se lhe dá prazer estar-me sempre a ralhar. Porque desta vez até nem tinha lá muita razão de queixa.”

     Sempre que tentava pensar no que levar para o concurso, convencia-me de que ainda tinha muito tempo para lhe dedicar o meu esforço mental. Agora era impossível dizê-lo. Faltavam dois dias e ainda não havia decidido o que levar para o tão inesperado concurso. Até ao momento em que ... fez-se luz: “Se o guarda- roupa não se mostra a mais ninguém a não ser à minha pessoa, posso levá-lo para onde quiser. E se no concurso, eu pedir por gestos aos júris e ao público que façam total silêncio, o guarda roupa não há - de perceber. E se as pessoas começarem a insinuar que ninguém absolutamente «normal» conseguiria executar o feito de entrar num guarda-roupa e mostrar um mundo totalmente novo (onde neva muito e as loja vendem doces e gelados que lavam os dentes automaticamente), eu respondo com toda a naturalidade de que tudo não passa de efeitos especiais.

     Sinceramente, para plano de última da hora, aquele fora espectacular.

     O último dia antes do concurso de Ciências Juvenil foi dedicado aos preparativos finais. Por essa razão fui deitar-me completamente estafado.

     Na manhã do dia 17 de Abril (dia do concurso e também do meu aniversário), fiz-me à estrada com os meus pais, com o meu irmão e com o meu «projecto». Pelas 14 horas e 30 minutos, partimos para o local descrito na carta, a fim de nos apresentarmos pelas 15 horas e 45 minutos.
     No Pavilhão do Conhecimento, deparei-me com um imenso público. Fui informar-me e soube que participavam cerca de 250 concorrentes. Éramos chamados por ordem alfabética e eu era o quinquagésimo nono a apresentar o meu projecto. No total havia 3 júris e a avaliação era de O a 10. A competição de conhecimento teve início 5 minutos mais tarde devido a alguns problemas relacionados com o público. Fui vestir-me e tentar decorar o meu discurso mais uma vez e, quando acabei, era a minha oportunidade de apresentar o meu projecto.

- NÚMERO 59— anunciou uma voz ao megafone

     Apresentei o meu projecto da seguinte forma:

     - Boa tarde minhas senhoras e meus senhores. Estou aqui presente para vos apresentar este meu projecto. Trata-se de um guarda-roupa mágico. E ainda vos queria pedir que durante esta demonstração fizessem silêncio... Obrigado. Como estava a dizer, este é um guarda-roupa mágico e, assim, vou-vos demonstrar uma coisa mágica.

     Abri a porta do guarda-roupa e lá se encontrava um mundo onde nevava muito e, mais à frente, inúmeras lojas cheias de doces, totalmente gratuitos, dos quais trouxe cerca de meia dezena. O público

aplaudiu e fiz-lhes uma vénia. Olhei para os júris.

     - DEZ PONTOS — disse um júri.

     - DEZ PONTOS — disse outro júri

     - NOVE PONTOS — retorquiu o último júri, franzido o sobrolho.

      “Boa!!!”- pensei eu. Para se apurar o vencedor tive de esperar mais 3 horas e 45 minutos. Vencedor esse que tinha sido... EU!!!

     Quando cheguei a casa, e como era Sábado, fizemos uma pequena festa que se prolongou até às 23 horas e 30 minutos. Lá estavam a Susana e o Miguel (que tinham voltado a ser os meus melhores amigos).

     Durante a festa, o meu pai recebeu um telefonema a dizer que o seu filho mais novo podia começar a preparar a mochila escolar para Segunda-feira. Ao receber aquela notícia, fiquei muito contente.

     Ao fim do dia, entrei no meu quarto, olhei para o meu guarda-roupa e vi que, no lugar dele, se encontrava a minha antiga janela. Bem, eu não sabia e até hoje ainda não sei, como é que aquele guarda-roupa aparecera e desaparecera. Mas eu adorara, porque ali encontrei uma janela aberta para a fantasia.

Publicado por ML às 19:59
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Imagem criada a partir de uma pintura de Kandinsky.

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Eduardo Cunha – 5ºA

Maria Frade – 5ºA

Cláudia Teixeira – 5º A

Eduardo Félix – 5º C

Caroline Buchacher – 5º D

Ana Ferreira – 5º H

Daniel Lourenço – 5º H

Duarte Godinho – 6º G

Beatriz Natário – 6º G

Inês Pipa – 6º I

Ana Bonito – 6º I

Joana Oliveira – 6º I

Bárbara Casteleiro – 6º I

Ana Raquel Santos – 6º I

Bianca Lobato – 7º D

Micael Dias Ribeiro – 8º E

Monique Morais – 8º F

Sofia Lemos – 9º C

João Lourenço – 9º H

Nádia Filipa Cabral – 10º C

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