Quarta-feira, 26 de Abril de 2006

Bianca dos Reis Lobato -7ºD

O Outono entardecia a cidade ... a penumbra daquela tarde iluminava os passeios calcetados, nas esplanadas as pessoas conversavam sobre diversos assuntos, outras passavam na rua a correr rodeadas de sacos de compras, grandes carros invadiam as estradas e o fumo pairava no ar danoso e poluente. Toda esta agitação contrastava com a calma e a beleza de um lugar aparentemente esquecido, mas que se encontrava ali perto. Era um pequena vila mas semelhante a uma aldeia. Há muito, muito tempo fora habitada por muita gente mas agora só as pequenas e velhas casas predominavam na paisagem habitual.

Porém, no cimo de um monte surge de súbito num olhar atento um enorme casario. Era um edifício eminente e de uma beleza incalculável. Tinha um pórtico de madeira escura como breu, e muitas janelas que harmonizavam a casa. Árvores guarneciam-na, agora desfolhadas, pela época outonal. De todas as suas divisões interiores dotavam-se os quartos que eram muitos e onde existiam muitas janelas... cada quarto contactava com o Mundo exterior através do simples abrir de uma das suas janelas.

Nesse casario habitava uma senhora de bem, fina, delicada e de gostos requintados. Vivia com o marido, um senhor astuto, decidido, ardiloso e de uma vasta cultura. Ambos gostavam de ópera, arte e literatura da época. Tinham dois filhos: o ilustre Miguel e a doce Catarina. Os dois irmãos mantinham uma óptima relação quase nunca discutiam, mas eram diferentes em tudo: na maneira de pensar e discutir assuntos, nos seus ideais e filosofias de vida, na relação que tinham com os estudos ... em quase todos os assuntos falados naquela casa pensavam de maneiras diferentes. Porém havia uma coisa em que eram totalmente iguais: Ambos consideravam a educação da época, uma educação sem liberdade, rígida, austera. Como qualquer criança, eles adoravam a Natureza, os pássaros, as árvores, as flores, tudo os fascinava...

Catarina, só saía de casa para ir à escola, quando não tinha labores para fazer, passava grande parte dos seus dias fechada no quarto, à janela a pintar.

No caminho para casa, Catarina observava tudo com muita atenção. As paisagens, as casas, os caminhos de areia que se arrastavam sinuosos pela mata, as crianças a brincar, os velhinhos a tratarem dos seus jardins… tudo ficava na mente de Catarina até que chegava a casa, atravessava o jardim de orquídeas, o canteiro de narcisos, entrava no salão, subia as escadas caracol a correr e finalmente chegava ao seu cantinho, sentava-se numa cadeira almofadada e logo os seus pincéis começavam a trabalhar arduamente, delineando tudo o que a doce menina tinha observado. Catarina apesar de tudo vivia feliz com os seus quadros, sonhava ser uma grande pintora, viajar pelo Mundo, voar mais alto sem que lhe prendessem as asas e viver livre e muito, muito feliz...

Miguel também frequentava a escola, uma escola para rapazes, futuros políticos ou militares de sucesso. Mas Miguel não queria ser político muito menos militar. Gostava de arte, escultura, pintura mas não possuía aptidão para pintar, nem para esculpir. Gostava apenas de observar, criticar e possuir algumas peças de arte. Adorava os quadros da irmã e sempre a apoiou e incentivou a seguir uma carreira de pintora, tal como o resto da família, que não a deixavam sair mas até gostavam de a ver pintar. Embora Miguel não possuísse vocação para ser pintor, político ou militar, existia uma área em que era muito bom, mas muito bom, mesmo... a dança. Um rapaz dançarino não era muito bem visto perante a sociedade austera da época. Existiam os trovadores que cantavam poesia e divertiam a aristocracia, mas dançar isso era para os jograis, que eram vistos com vagabundos, pobres, incultos e metediços. Miguel não pensava dessa maneira, considerava a dança uma forma de liberdade, de expressar os nossos sentimentos e preocupações, uma arte diferente da pintura ou escultura mas também ela uma arte digna, de ser praticada por todos sem censura nem exprobração.

Helena tinha catorze anos vivia na cidade e conheceu Miguel quando pela primeira vez, o rapaz saiu para ir ao mercado com a aia Susana, uma das doze aias que se encontravam na casa, acompanhadas de mais quatro jardineiros e oito criadas.

Miguel conheceu então a sua primeira amiga e contou-lhe o que pensava acerca da dança, uma feliz coincidência que veio mudar a vida de Miguel. Helena também dançava às escondidas e prometeu dançar com ele e dar-lhe algumas aulas se ele precisasse. Miguel adorou a ideia e para ele a sua vida começou a tomar um rumo, a fazer algum sentido. Pediu aos pais para ter umas explicações de matemática para não baixar a excelente nota que tinha. Os pais concordaram e ficaram muito satisfeitos pelo empenho que Miguel estava a demonstrar.

Mas Catarina achou muito estranho, pois embora o irmão não gostasse muito da escola, e só querer dançar, era um excelente aluno a Matemática e não necessitava de explicações. Depois do jantar e da troca de olhares misteriosos entre irmãos, Catarina chamou Miguel ao seu quarto e então ele explicou-lhe tudo o que tinha acontecido na ida ao mercado. Catarina apoiou-o sempre e então Miguel começou a ter aulas de dança. Miguel tornou-se num grande dançarino e Helena também. Tinham aulas de dança, supostas explicações de Matemática, na casa de Helena, que entretanto fora morar para uma pequena casa em frente ao grande casario onde Miguel morava.

Catarina observava tudo da janela do seu quarto que se encontrava em frente a uma janela da casa de Helena e começou a pintá-los. De vez em quando Catarina acenava-lhes com as suas graciosas mãos e eles respondiam com passos de dança elegantes, e subtis.

Miguel e Helena cresceram e prosperaram ... contaram a verdade às suas famílias e contra a sua vontade foram para a Argentina, onde fizeram muito sucesso com os seus novos estilos de dança, desconhecidos mas muito aprazíveis para os argentinos.

Catarina, continuou a viver no casario... rodeada de aias e criadas continuou a pintar. Em cada janela da casa Catarina pintou um quadro diferente, um mais bonito do que o outro.

Na janela do seu quarto, pintou o nascer do sol, o percurso do sol iluminando os campos, os jardins de flores, as casas, os caminhos de areia... a luz resplandecente saciava o quadro de amarelo e laranja

Na janela do salão, pintou o pôr-do-sol, o laranja, a penumbra cobriam a vila, o frio chegava, a noite aproximava-se...

Na janela da cozinha, pintou a Primavera. As rosas a desabrochar, os narcisos a florir, as árvores cobertas de folhas verdes e atestadas de ninhos de pardais, que ousavam quebrar o silêncio da vila, com os seus cantos harmoniosos. O sol brilhava no céu azul, leves perfumes invadiam o ar, as crianças jogavam ao pião, ou andavam de baloiço, saltavam, sorriam, felizes.

Na janela da biblioteca, pintou o Verão, as árvores começavam a dar os seus primeiros frutos, várias pessoas apanhavam maçãs, pêras e pêros, outras sentavam-se nos bancos de jardim, conversavam e jogavam xadrez ou cartas.

Na janela da sala do piano pintou o Outono, as folhas secas caíam das árvores, os dias eram cada vez mais pequenos, fazia vento e o sol quase não aparecia, escondido pelas nuvens, negras, acinzentadas, escuras.

Na janela do quarto de Miguel, pintou as estrelas e a lua... a este quadro sucederam muitos outros quadros que foram completando a vasta colecção de Catarina.

Catarina decidiu, então, partilhar os seus quadros com todas as pessoas que os quisessem ver. Com a ajuda das aias e criadas suas amigas, companheiras decorou as paredes do casario com todos os seus quadros e convidou todas as pessoas da vila e da cidade próxima para os contemplar. O casario encheu-se de gente, muitos pintores famosos quiseram ver as obras de Catarina e incentivaram-na a prolongar a apresentação dos seus quadros durante todo ano, dar-lhe um título para que este acontecimento ficasse marcado no pensamento de todos. Catarina aceitou a proposta, intitulou a sua vasta colecção de quadros de « Janelas Abertas » e tornou-se assim na pintora mais conhecida da época... graças às janelas que continuam abertas na esperança que por ali passem outros, novos talentos...

 

Publicado por ML às 00:14
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Imagem criada a partir de uma pintura de Kandinsky.

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