Quarta-feira, 26 de Abril de 2006

Nádia Filipa Cabral - 10ºC

 Uma Punhalada no Amor

 

Era uma vez um menino chamado Pedro que vivia numa aldeia muito pequena que quase ninguém conhecia. Pedro era um menino bondoso e sincero, mas muito ambicioso cujo maior sonho era ser rico e poderoso. Contudo, tal como os restantes habitantes da aldeia onde vivia, também ele e a sua família eram pobres, pelo que Pedro não ia à escola. Em vez disso, trabalhava numa oficina para ajudar os pais a pagar as dívidas e a comprar comida suficiente para, pelo menos, não morrerem à fome, visto que, devido a uma paralisia cerebral incurável, a mãe de Pedro estava impossibilitada de exercer qualquer profissão.

Mas dentro daquele pobre coração nem tudo eram tristezas. Havia alguém que o fazia sorrir mesmo quando estava triste por não poder ajudar mais a sua família. Alguém que o fazia ver sol mesmo quando chovia. Alguém que o encantava verdadeiramente. Esse alguém era Amália, uma menina muito bonita e simpática que também era pobre, mas que, ao contrário de Pedro, vivia feliz. E Pedro interrogava-se sobre como poderia alguém ser tão feliz se era tão pobre! Mas não encontrava respostas.

Mais tarde, com a morte da mãe, com a qual sofreu muito, o seu único consolo foi Amália, que exerceu sobre Pedro um poder protector que este jamais havia pensado ser possível. Contudo, a morte da sua mãe deixou Pedro muito em baixo e tornou-o rancoroso e insensível, levando a que Amália se afastasse de si. Por sua vez, com o afastamento de Amália, Pedro começou a envolver-se em meios menos próprios e a fazer amizades com as mais variadas pessoas. Uma delas era Justino - um moço alto, magro, de cara borbulhenta e grandes olheiras - e que era, provavelmente, uma das pessoas mais detestáveis que pode haver. Quando passava na aldeia todos lhe viravam a cara e os poucos que o olhavam de frente, faziam-no com ar desconfiado. Onde estivesse, havia sempre confusão.

Os anos iam passando e Pedro, com o dinheiro que ia obtendo da sua vida obscura, resolveu criar uma sociedade com Justino, na qual seriam sócios gerentes de uma empresa têxtil, que se sabia dar grande lucro na altura.

Ao saber de tal sociedade, Amália, que até então tinha tentado aguentar toda a solidão que a abrangia sozinha e calada, resolveu de uma vez por todas que tinha de advertir Pedro para os riscos adjacentes a tal sociedade com Justino, pois este era um grande vigarista e decerto faria de tudo para que Pedro ficasse sem nada, ficando assim com todos os lucros da empresa investindo apenas metade do capital. No entanto, todas as palavras que Amália proclamou e todas as lágrimas que entretanto derramou não foram suficientes para Pedro mudar de opinião em relação ao seu sócio e “amigo”, pois este não quis ouvi-la e escorraçou-a do seu gabinete fazendo-lhe o ultimato de que se ela voltasse a interferir na sua vida, poderia acabar por ficar sem a dela. Amália não quis ouvir mais e saiu desgostosa da vida daquele escritório onde tanto mal lhe haviam feito. Jurou a si própria que nunca mais ali voltaria e dependendo de si, também nunca mais quereria ver Pedro na sua vida. Contudo, bem lá no fundo, Amália sabia que ele tinha um bom coração e que apenas tinha sido atingido pela ganância.

Por sua vez, Pedro estava cada vez mais rico e, consequentemente, mais feliz. Tinha agora tudo com que sempre sonhara: dinheiro, poder, uma casa enorme e movimentada (ainda que mal), uma empresa bastante lucrativa, bastantes amigos e/ou conhecidos, um carro topo de gama que exibia excitadamente e com grande agitação, e, o mais importante (pensava ele): a popularidade que tinha junto do sexo feminino e que lhe concedia uma condição especial no que tocava a arranjar namorada ou namoradas. Visto que a vida lhe dera a oportunidade de ser feliz, ele queria aproveitá-lá. Pedro sabia, no seu interior, que poderia vir um dia em que tudo mudaria, mas preferia não pensar tão negativamente e aproveitar a vida enquanto podia. E agora, ele estava certo de que podia e devia fazer tudo o que quisesse!

No entanto, enquanto fazia tudo a que tinha direito, Pedro não conseguiu aperceber-se de que o mundo não era aquele sonho cor-de-rosa em que ele vivia, para toda a gente. A verdade é que o seu pai estava gravemente doente e, também devido à sua idade avançada, encontrava-se agora às portas da morte. Mas Pedro parecia desconhecer tal situação pois o tempo que dedicava ao seu pai era tão pouco que raramente o via. Nem nos anos do seu pai ele se dignava a aparecer e não era por não se lembrar, porque Pedro enviava-lhe sempre um cheque como prenda de aniversário. Pobre coitado! O Pedro não entendia que o dinheiro não era solução para os problemas reais da vida. Talvez, no mundo em que vivia, o dinheiro tivesse muito valor, até demasiado, mas o que é facto é que até a mais ignorante pessoa do mundo saberia que sem amor não há dinheiro que compre a felicidade eterna e verdadeira. Mas Pedro não era ignorante. Pedro estava cego! Tomara-se numa pessoa horrível e não dera conta de que estava a perder aquilo que de mais precioso se pode ter: o amor! Perdera o amor da sua mãe quando esta morreu, o amor de Amália - que entretanto encontrara alguém mais merecedor do seu amor, embora esta não o tivesse para lhe dar, uma vez que, infelizmente, o seu coração continuava a suspirar secretamente por Pedro -, no dia em que a escorraçara do seu escritório, e estava prestes a perder o amor do seu pai que, com o passar do tempo e a falta de carinho e atenção, se encontrava agora mais debilitado que nunca.

Pedro só soube do estado de saúde do seu pai quando foi informado oficialmente de que este se encontrava já morto. A sua única reacção foi sentar-se na cadeira do seu gabinete e esperar acordar do que pensava ser um pesadelo. No entanto, aquele pesadelo continuava e ele sabia agora que não ia acordar nunca dele.

No dia do funeral do seu pai, a aldeia estava toda presente, incluindo Amália, para prestar homenagem àquele que tinha sido um grande homem e que se tinha feito notar pela sua grande humildade, grande personalidade e grandeza de alma e coração, qualidades que o seu filho não tinha. A cerimónia correu perfeitamente bem e ninguém quis deixar de dizer uma última palavra de adeus a um grande amigo que se perdia graças às circunstâncias da vida cruel que levava. O padre, esse, proferiu comoventemente as palavras, elogiando infinitamente aquele que disse ser «um homem nobre e encantador e não deixou de notar “a sua enorme dedicação à aldeia e o enorme esforço que teve para fazer dela um sítio melhor para viver contribuindo bastante para que os presentes se mostrassem, não melancólicos por perderem um grande amigo, mas felizes por terem conhecido alguém tão bom e com tanta coragem e força de vontade.

No fim da cerimónia fúnebre, Pedro encontrava-se - pela primeira vez desde há muito tempo - verdadeiramente comovido e não quis deixar de agradecer a ninguém a sua presença naquela que era a última vez que veria o seu pai.

Contudo, ninguém se dignou a olhar para ele e muito menos a dirigir-lhe qualquer palavra que fosse... excepto Amália. A única coisa que ela lhe disse foi que ele tinha escolhido o caminho errado na sua vida e que a sua estrada só tinha uma direcção, pelo que não havia meio de dar a volta e voltar para trás. Disse-lhe que era altura de ele seguir em frente e que esquecesse que alguma vez havia tido amigos na aldeia pois já ninguém conseguia sequer olhar para a sua cara pela vergonha que sentiam de ter gostado tanto daquele rapazinho inocente que ele era e que se havia transformado num monstro. Dito isto, também Amália virou costas a Pedro e, tal como os restantes habitantes da aldeia, voltou para casa.

Durante dias ninguém ouviu falar de Pedro e corriam boatos de que se havia mudado da aldeia para a grande cidade, que se havia suicidado, que havia sido raptado, que desaparecera propositadamente devido à vergonha que sentia por ter “morto” o seu pai... No entanto, nem Pedro sabia realmente o que se passava. Não conseguia sair à rua, era verdade, mas não era por vergonha, ou talvez fosse, não sabia. Apenas sabia que algo estava errado consigo. Teria finalmente entendido que não eram o dinheiro, o poder e a fama a verdadeira felicidade? O que é facto é que uma dor enorme se apoderava de si e era impossível curá-la com que remédio fosse, pois a dor que sentia era a perda dos seus pais, principalmente do seu pai, de quem costumava ser muito amigo. E a verdade era que desta vez nem Amália tinha do seu lado para o consolar como acontecera quando a sua mãe morreu. Sentia a falta dela, mais do que pensava ser possível. Teria ele compreendido que era amor o que sentia por ela? Seria possível que, depois de tantos anos a pensar que o amor era algo tolo e enfadonho, tivesse descoberto que estava e sempre estivera, embora não soubesse, apaixonado por Amália? A resposta era sim! Foi nesse preciso momento que Pedro percebeu que todo aquele dinheiro que tinha conseguido até então não o ajudara em nada, pois ele continuava triste e solitário, o que fazia com que se sentisse ainda pior e mais destroçado.

Foi então que decidiu que estava na altura de mudar as coisas. Sabia que não podia voltar atrás no tempo de modo a fazer tudo de novo, mas podia, pelo menos, tentar emendar os estragos que causara. Durante semanas, Pedro preparou uma enorme surpresa para que toda a aldeia visse e compreendesse que ele estava mudado ou que estava a tentar dar um novo rumo à sua vida. Encontrava-se agora verdadeiramente feliz, pois sabia estar a fazer o melhor que podia por si e pelos outros. Os preparativos para o grande dia estavam prontos e na aldeia ninguém sequer imaginava o que Pedro andava a tramar e não tinham de todo qualquer conhecimento sobre a sua intenção de lhes fazer uma surpresa.

Quando o grande dia chegou, a primeira coisa que Pedro fez foi ir falar com Amália e dizer-lhe que estava arrependido, pedir-lhe por tudo que o perdoasse, pois ele estava mudado. Mas qual não foi a sua surpresa quando chegou a casa de Amália e observou com desagrado que todos lá se encontravam com um ar bastante pesado. Pedro tentou saber o que se passava, mas nenhum dos presentes parecia saber responder-lhe, balbuciando apenas algumas palavras soltas no meio de vários soluços e lágrimas. Sem saber o que fazer, Pedro entrou de rompante no quarto de Amália, mas nada mais encontrou que um caixão. Amália tinha morrido. A pessoa com quem, em pequeno, pensava passar o resto da sua vida tinha desaparecido para sempre e ele nem tivera oportunidade de lhe pedir perdão. Pela primeira vez desde a morte da sua mãe, Pedro sentia uma enorme vontade de chorar. Parecia-lhe que não conseguiria aguentar tanta dor e sofrimento. Sentia-se muito triste e vazio, como se o coração e a alma lhe tivessem abandonado o corpo e deixassem em seu lugar apenas um ser pálido e imóvel. Pedro sentia-se incapaz de se mexer como se estivesse preso aos terríveis sentimentos que se iam apoderando de si. Só passados alguns minutos, que lhe pareceram intermináveis horas, conseguiu olhar em seu redor, para o quarto da sua amada. Encontrava-se agora sentado no chão e, de lá, observava cada pormenor daquele quarto que tão bem conhecia. Estava tudo no seu sítio, pois, embora Amália não fosse pessoa de grandes posses, sempre fora muito arrumada e organizada. Não conseguia ficar ali nem mais um momento. Levantou-se e saiu.

No dia seguinte era o funeral de Amália. Pedro, com a ajuda dos seus empregados, distribuiu todo o seu dinheiro pelas casas dos habitantes da sua aldeia, sem que estes dessem conta, e por lares e instituições de caridade, para que fizessem melhor uso dele do que aquele que Pedro fizera anteriormente. Guardou apenas algumas das suas jóias para si. Tinha uma boa utilidade para lhes dar, pensava.

Eram onze horas e Pedro encaminhava-se agora para o cemitério onde já todos se encontravam a celebrar o funeral de Amália. Chegou a meio da cerimónia e nesse mesmo instante pediu perdão a todos por ter sido injusto e por ter enganado tanta gente para conseguir dinheiro, dinheiro esse que não lhe trouxera nenhuma felicidade.

Depois, tirou do bolso do seu casaco um punhal em forma de rosa feito de ouro e cujos espinhos eram diamantes e, perante todos os que ali se encontravam, disse a chorar:

- Esta é a prova de que o dinheiro não traz felicidade e pode até levar à morte, quando a ganância e a sede de poder são mais fortes que o amor que nos esquecemos de viver!

Ao acabar de proferir tais palavras - e perante o olhar assustado ou até aterrorizado de todos os presentes — espetou o punhal no peito e deixou-se cair sobre o caixão de Amália.

Pedro tinha razão. O dinheiro que durante tanto tempo tinha sido a sua felicidade, acabara de o matar. Mas não em vão. A história de Pedro foi contada e recontada vezes sem conta e passava de pais para filhos como um pequeno tesouro que todos queriam conter e guardar preciosamente. E ainda hoje existe, naquela pequena e pobre aldeia em que o dinheiro era pouco, uma estátua de um rapaz sem rosto com o punhal que matara Pedro na mão e com uma placa aos pés que diz:

            -“Aqueles que seriam capazes de dar a vida em troca de dinheiro, para que se lembrem de que houve alguém que o fez e que se arrependeu, embora tarde demais para recuperar o seu amor que acabou por morrer. Bem vindos ao concelho de Ávila”.

Publicado por ML às 22:39
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Imagem criada a partir de uma pintura de Kandinsky.

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