Quarta-feira, 26 de Abril de 2006

Ana Raquel Machado- 10ºD

Um dia, quando tinha seis anos o meu avô disse-me:

- E melhor manteres-te limpa e brilhante. Tu és a janela aberta através da qual tens de ver o mundo!”

Quatro anos depois, ele morreu e nunca tive a oportunidade de lhe perguntar o que queria dizer com isso. Cresci a pensar que a resposta à minha pergunta estava no futuro e suponho que hoje a tenha encontrado.

Meditei bastante e julgo que o meu avô me deu uma grande lição de vida. Aprendi que os dias da minha vida que se destacam com mais clareza são aqueles em que aprendi alguma coisa e de facto, o dia em que o meu avô me disse aquilo foi um dia em que aprendi bastante.

O meu avô era uma pessoa muito sábia, possuidora de vários valores que fazia questão de defender, determinada, usufruía de um carinho natural por tudo e todos, para mim ele será para sempre uma grande janela aberta, ornamentada de amor, carinho e beleza... Se fosse um pássaro gostaria de poisar todos os dias na sua janela para cantar, pois saberia que todos os dias seria brindada com um sorriso e uma palavra amiga.

No dia em que morreu senti a minha janela fechar-se, ficar embaciada e com um aspecto sujo... Mas, de seguida lembrei-me do meu avô, das suas palavras, do seu sorriso e, abri a minha janela. Sim, foi um dia muito triste, tudo estava sombrio e apagado. Ver uma das pessoas de que gostamos muito ir embora para sempre dói. Fazemos perguntas como: “Porquê?” ou “Para que serve a vida se acabamos todos por morrer?”

Fui ter com uma grande amiga do meu avô. Uma mulher linda, em tempos e antes de o meu avô casar com a minha avó, ela tinha sido uma grande paixão sua. Tornaram-se grandes amigos e confidentes. O meu avô sempre que falava nela, os seus olhos brilhavam, assim com quando a D. Sofia (assim era o nome da amiga do meu avô) falava dele.

A D. Sofia tinha sempre histórias para contar. Eu apreciava muito lanchar com ela. Era solteira, não tinha filhos e afirmava gostar de mim como de uma neta.

Na tarde, depois do funeral do meu avô, convidou-me para lanchar. Aceitei e fui ter com ela. Não sei porquê, mas assim que cheguei ao pé dela só me apeteceu chorar e foi o que fiz. Chorei durante muito tempo ao colo da D. Sofia. Senti que havia alguém como eu, alguém que perdera uma parte de si e que ficara apenas um vazio cheio de dor. Em seguida, ela levantou-se e foi buscar uma carta e uma caixinha de música. Disse que era para mim. Comecei por abrir a carta e apercebi-me que era a letra do meu avô. Li-a em voz alta:

“Querida neta,

Não sei quando vais ler esta carta, mas sei que será depois de eu morrer. Não, a vida não é injusta, como tu deves estar a pensar. Eu posso não estar ao pé de ti fisicamente mas estou dentro do teu coração, assim como tu estás no meu. De ti só tenho recordações boas, desde o dia em que nasceste até ao último dia da minha vida. Tive medo de morrer e de não te dizer tudo aquilo que gostava de dizer.

Nunca deixes de acreditar em ti, no teu valor. Sempre foste uma criança cheia de energia, refilona, alegre que punha todas as pessoas a rir. Sempre que te lembrares de mim quero que seja com um sorriso, aquele com que me habituaste. Tenho a certeza que vais encontrar o teu rumo. Luta sempre por aquilo em que acreditas. Espero que ainda te lembres das minhas palavras, quando te disse para te manteres limpa e brilhante, tu és uma janela aberta.

Eu vou estar sempre a olhar por ti como fiz durante toda a minha vida.

A tua avó deixou-me uma caixinha de música e pediu-me que quando morresse a entregasse a alguém que fosse realmente importante para mim.

Conta sempre com a Sofia, se precisares de alguma coisa.

Um beijo muito grande do teu avô,

Afonso.”

O meu avô conseguia sempre surpreender-me, mesmo depois de morto. Perguntei à D. Sofia o porquê daquela carta e ela disse-me que o meu avô sabia que estava doente e que podia morrer a qualquer momento. Percebi então o quão a vida é frágil. Perdemos tempo com coisas insignificantes e damos pouco valor àquilo que realmente importa.

Decidi abrir a caixinha de música e ouvi a música mais linda do mundo. Suave e cheia de expressão, trazia à minha cabeça os melhores momentos da minha vida.

A D. Sofia contou-me a história da caixinha de música enquanto lanchávamos. Fiquei a saber que tinha passado de geração em geração, que na minha família era um objecto de grande valor emocional. Prometi à D. Sofia que ia dá-la a alguém de quem gostasse muito.

Entretanto e depois de todas as emoções, decidi perguntar à D. Sofia porque nunca se tinha casado. Ela olhou para mim e disse que eu nunca iria perceber. Ao que lhe respondi que jamais saberia qual a minha reacção se não me contasse.

“— Existe uma felicidade na vida: amar e ser amado.” Foi a única coisa que me disse. Percebi que ela tinha sempre amado o meu avô. Preferiu amar a ser amada. Para ela não fazia sentido casar, constituir família com um homem que não amasse. Mesmo passados todos aqueles anos em circunstância alguma o esqueceu. Questionei-a pelo facto de não ter casado com o meu avô e ela disse que na altura a minha avó engravidara e que o pai era o meu avô pelo que foi obrigado a casar.

- Porque é que não fugiram? — inquiri com a inocência dos meus dez anos.

- Era errado fazê-lo. O teu avô era um homem com valores bem assentes, como sabes...

- Mas quem ele amava era senhora. Não devemos ficar com quem amamos? O meu avô disse-me que só devemos fazer aquilo que queremos.

- E era justo que a tua avó ficasse sozinha, com uma criança...? De qualquer forma tenho a certeza de que o Afonso não se arrepende de ter casado com a Maria, tiveram filhos lindos e netos maravilhosos...

- Mas... e a senhora no meio disto tudo, foi quem mais sofreu.

- Não me importo. O Afonso era um homem feliz e eu só queria ver quem amava feliz.

A partir daquele momento passei a admirar ainda mais aquela mulher. Sofreu a vida inteira por amor e mesmo assim era feliz, à sua maneira.

Passei a visitar a D. Sofia todos os meses. Levava-lhe flores e no dia dos Avós era com ela com quem estava. Fui crescendo e ela envelhecendo, mas cada dia gostava mais dela. Ela lembrava-me a minha infância, o meu avô, tudo aquilo de que sentia falta. Tinha sempre um ensinamento para me dar, uma palavra amiga para me dizer, uma repreensão a fazer quando eu precisava e era a minha melhor amiga. Por mais estranho que parecesse, conseguia contar-lhe coisas que nem era capaz de dizer à minha mãe ou amigos. Ela era no fim de contas a minha confidente. Nunca me deu conselhos, era apologista daquele provérbio: “ Se os conselhos fossem bons não se davam, vendiam-se.”

Esteve sempre presente em todos os momentos da minha vida.

Um dia, a D. Sofia adoeceu. Senti que ia perder outra pessoa de quem gostava. Foi nessa altura que me disse:

- Tens de manter limpa e brilhante. Tu és a janela aberta através da qual tens de ver o mundo! Não te podes deixar abater.

E fui a todos os médicos que conhecia procurar uma cura para ela. Eu não a podia deixar morrer, o meu avô tinha morrido e eu nada tinha feito e agora não podia cruzar os braços. Mas todos me respondiam que não existia cura. Que nem sequer sabiam de que doença se tratava. Senti-me presa, incapaz, senti ódio de tudo e todos. As pessoas morriam e ninguém se importava. Porque é que as pessoas boas morrem em acidentes de automóveis ou com doenças e as pessoas más são sempre as últimas a morrer?

Passei a visitar todos os fins-de-semana a D. Sofia. Ela estava cada vez mais fraca, o olhar apagado, nem conseguia falar durante muito tempo. Senti que estava a fugir-me das mãos e eu chorei, senti uma dor que há mais de cinco anos não sentia, a dor de perder alguém. Ela exigiu-me que lhe sorrisse, aquele sorriso que o meu avô me pediu. E eu tentei, mas a tristeza, o desespero tinham invadido o meu coração.

Posteriormente, perguntou-me pela escola, pela profissão que queria escolher. Disse-lhe que estava a viver o maior dos pesadelos. Toda a minha família queria que eu seguisse medicina, pois dava dinheiro e era uma profissão de prestígio. Eu nunca quis ser médica, sempre aspirei seguir arqueologia ou jornalismo de investigação. Não tinha qualquer sentido ser médica, nem sequer tinha vocação. Sempre gostei de História, de escrever, de investigar. O meu sonho era informar o mundo, dar a conhecer coisas que em tempo algum alguém descobriu. Ia ser muito feliz se tivesse uma conta bancária com menos zeros. Sim, de facto, ter dinheiro é essencial para viver e ser feliz não conta? O que me interessa ter fama, dinheiro e ser infeliz? Não obrigado, mas prefiro ser feliz.

A D. Sofia disse que eu fazia bem em me impor. Tudo o que fizesse naquele momento iria condicionar o resto da minha vida. Ela disse-me que desde de pequena eu tinha a mania de investigar, de escavar, de procurar tudo. Era possuidora de uma curiosidade aguçada, tal como o meu avô. Cada dia que passava achava-me mais parecida com ele. E antes de me ir embora para casa disse-me:

“— As vezes existe um limite entre fazeres as coisas que os outros querem que faças e seres verdadeira para contigo própria — escuta a tua própria voz, as tuas preferências, age de acordo com o que acreditas e faz aquilo que é realmente importante para ti...” e morreu.

Tinha a sua mão agarrada à minha, largou-a, fechou os olhos e morreu. Assim de uma maneira rápida e estúpida. Ver uma pessoa morrer faz-nos repensar toda uma vida.

No dia seguinte foi o funeral. Quase não estava ninguém, apenas alguns amigos, familiares e eu. Mais uma vez senti a minha janela fechar-se.

O padre começou a falar e eu só me conseguia lembrar de todos os momentos bons que a minha amiga me tinha proporcionado.

A sua amizade, a sua paciência, o seu amor tinham-me ajudado a tornar numa pessoa melhor, mais responsável.

Vê-la ali deitada era estranho, mas eu sabia que assim como o meu avô, ela estava no meu coração e iriam ajudar-me estivessem onde estivessem. Antes de taparem o caixão senti que só havia uma pessoa merecedora da caixinha de música, a D. Sofia e pu-la dentro do caixão. Fui-me embora, não queria despedir-me dela.

Hoje em dia, comecei a encarar a morte como algo natural, que mais cedo ou mais tarde tem de acontecer.

A minha janela está mais aberta do que nunca e pronta para receber tudo aquilo que lhe quiserem oferecer.

Publicado por ML às 22:40
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos
1 comentário:
De ML a 26 de Abril de 2006 às 23:00
Teste

Comentar post

Imagem criada a partir de uma pintura de Kandinsky.

.pesquisar

 

.Lista de participantes

Eduardo Cunha – 5ºA

Maria Frade – 5ºA

Cláudia Teixeira – 5º A

Eduardo Félix – 5º C

Caroline Buchacher – 5º D

Ana Ferreira – 5º H

Daniel Lourenço – 5º H

Duarte Godinho – 6º G

Beatriz Natário – 6º G

Inês Pipa – 6º I

Ana Bonito – 6º I

Joana Oliveira – 6º I

Bárbara Casteleiro – 6º I

Ana Raquel Santos – 6º I

Bianca Lobato – 7º D

Micael Dias Ribeiro – 8º E

Monique Morais – 8º F

Sofia Lemos – 9º C

João Lourenço – 9º H

Nádia Filipa Cabral – 10º C

Ana Raquel Machado – 10º D

.Posts recentes

. Sofia Lemos - 9ºC

. João Lourenço - 9ºH

. Maria Frade - 5ºA

. Ana Raquel Machado- 10ºD

. Nádia Filipa Cabral - 10º...

. Monique Morais -8ºF

. Micael Ribeiro -8ºE

. Bianca dos Reis Lobato -7...

. Ana Raquel Santos -6°l

. Bárbara Casteleiro -6ºI

.Arquivos

. Abril 2006

.Links

.Os Vencedores :

Os textos vencedores serão brevemente publicados aqui! Enquanto isso, não deixem de comentar o vosso conto preferido! Boas Leituras...