Sexta-feira, 28 de Abril de 2006

João Lourenço - 9ºH

 

       O rapaz chama-se Juan. Pode-se dizer que se trata de menino comum a todos os outros, mas com uma pequena diferença: é órfão desde os seus três anos de idade. Vive com a avó numa casa pequena, pobre e maltratada. Exteriormente e de uma forma clara, apresenta grandes manchas amarelas na madeira límpida e bem trabalhada. A falta de limpeza nota-se ainda no quintal onde, longinquamente, existiam enormes girassóis que se espreguiçavam quando o Sol acordava. Era uma casa bonita, prendada de juventude, amor e carinho. Agora, depois da morte dos pais de Juan, tornara-se muito triste e solitária.

      O menino, esse, de nada se lembra devido à sua pouca idade, mas já lhe haviam contado que David e Ana, seus pais, tinham um enorme coração e caso ainda fossem vivos, gostariam de o ver crescer, pois, durante o pouco tempo que passaram juntos, tratavam-no como verdadeiros pais. Apesar disto, o rapaz não é triste e sossegado. Ama sua avó Dora como se fosse sua mãe, e na verdade é assim que se pode designar a sua função. Tem média estatura, possui cabelo desorganizado e muito escuro, que em conjunto com os seus olhos, dão-lhe um aspecto de um rapaz endiabrado, irrequieto e brincalhão. Contém também um misto de inteligência e desleixo, tornando-o uma pessoa que consegue grandes proezas sem nenhum esforço.

      Ambos vivem perto de Santiago, no Chile. Aqui Juan tem bastantes amigos, que, como ele, não param de brincar e fazer asneiras. No entanto, entre todos, é ele que se destaca pelo seu carácter. Com apenas sete anos, é inefável a maneira como demonstra elevada perspicácia e coerência. Frequenta a mais infame de todas as escolas da pequena cidade. Não se transfere para uma melhor, pelo simples facto de as restantes serem demasiado caras e a sua avó, devido à pequena reforma que recebe, tem indubitavelmente falta de dinheiro para pagar outra. Não devemos falar primeiro num elevado custo do ensino, mas sim numa pobreza a grande nível.

      Esta história teve início numa bela tarde de Outono, onde, contrariamente ao previsto, o Sol não se encontrava escondido no meio das nuvens. Estava bastante calor, como já é normal, mas, entre a multidão que passava, presenciava-se alguma ansiedade: chegava o dia onde todos os apaixonados trocariam presentes, assim como seriam feitas algumas surpresas. Era uma pequena tradição muito recente, mas apenas servia para quem o dinheiro não significava um problema. E como na terra de Juan as pessoas viviam com extremas dificuldades, o próprio entusiasmo não seria, talvez, dos melhores. Prosseguindo, muita gente seguia este costume, o que por vezes, provocava situações complicadas de resolver.

      Na casa do jovem, apenas estava a sua avó Dora, esperando a chegada do neto a qualquer momento como normalmente acontecia, dada a sua pontualidade. Olhando para o fiel relógio de parede, pôde constatar este facto. Lendo-lhe o pensamento, o rapaz abriu a porta de casa e perguntou-lhe se ela havia estado à sua espera. Depois de arrumar a mochila pesadíssima, decidiu lanchar, algo que já se mostrava normal.

      Mais tarde, sentado na velha e antiga poltrona que pertencera a seu pai, Juan fazia os trabalhos recebidos aquando a saída da escola, nesse mesmo dia. Depois de os acabar, resolveu ir brincar com os carrinhos de rolamentos, com os quais mantinha uma cumplicidade forte.

      Nos dias seguintes e com a mesma rotina de sempre, o menino foi melhorando as suas atitudes perante determinados estímulos. Antigamente, os colegas troçavam-no por não ser um óptimo jogador de futebol. Reagia prontamente, mas não correctamente, através de socos e pontapés, que quase sempre lhe traziam problemas sérios. Dora, felizmente era compreensível, e por isso, não o punha de castigo, contrariamente ao esperado. De maneira a fazê-lo perceber certas coisas, tinha conversas que se verificavam tanto eficazes quanto panos molhados em água fria por cima de cabeças escaldantes. Como resultado, obtia uma enorme satisfação ao dar conta que seguidamente a estes pequenos monólogos, o próprio Juan assumia os seus erros e comprometia-se a fazer o óbvio, pedir desculpa. Transpostas bastantes zangas, o miúdo entendeu finalmente que cada pessoa tem diferentes qualidades e assim, deve-as usar quer os outros gostem ou não. Passado este tempo, caracterizado por alguns distúrbios sem consequências, muito por culpa da avó sempre presente para o apoiar e ensinar a ser melhor, veio um tempo de acalmia, que se veria a revelar benéfico.

      Durante os meses seguintes, Juan comportou-se da melhor maneira possível: bons resultados nos testes e excelente atitude tanto em casa como na escola. A sua professora encontrava-se relativamente contente, uma vez que aliado à melhoria do rapaz, estava também um melhor relacionamento quer consigo, quer com os colegas.

      No entanto, Dora estava já muito cansada de todo o trabalho que o seu neto lhe dava, apesar de isso já não acontecer com tanta frequência. Assim, o rapaz sabia perfeitamente que teria de se esforçar para estar à altura, pois a sua avó estava consideravelmente idosa. Além disso, segundo o médico, a avó não poderia de maneira nenhuma pegar em coisas pesadas, de modo conseguir recuperar bem e rapidamente.

      De forma mudar esta situação, o médico decidiu pedir a um amigo seu, assistente social, para ir regularmente a casa do jovem, impedindo que a senhora perturbasse o seu completo estado de repouso. Poucos dias depois do pedido, Hernandez, o assistente social, encontrava-se à porta da casa de Juan. Era alto, possuía cabelos louros, dada a sua descendência inglesa, e ainda olhos azuis que incendiavam quem para eles tentasse olhar. Tinha ar simpático, necessário à sua profissão, e um coração enorme.

      Tocou à campainha, e minutos depois, foi o jovem que apareceu, perguntando:

   -     Quem é o senhor?... E o que deseja?

      O assistente, respondeu de uma forma delicada, muito suave, leve e amiga:

Chamo-me Hernandez e venho ver a tua avó!

      O miúdo não compreendia como é que a sua querida avó iria receber visitas sem o informar. No entanto, sem dar parte fraca, disse hesitante:

   -      De onde é que o senhor... conhece a minha avó?     

      Hernandez deu uma gargalhada fresca, significando que estava de bom humor. Contudo, Juan pensando tratar-se de uma situação de troça, rematou de imediato:

-      Eu não sei o que o senhor deseja, mas se pretende falar com a minha avó, terá de fazê-lo mais tarde!

      O jovem assistente social, percebeu que o rapaz havia ficado agitado, e por isso, tomou uma postura séria, de modo a poder entrar sem que o neto de Dora tivesse medo dele. De seguida, voltou novamente a Juan dizendo-lhe:

   -      Não tenhas medo! Sou amigo do Dr. Sebastian. Penso que sabes de quem falo!                

     O menino, voltou a acalmar-se, até porque se recordava de algumas palavras do médico, apontando precisamente nesse sentido. Respondeu de imediato:

   -      Entre, por favor! Esteja à vontade, enquanto eu  vou chamar a minha avó.

      Hernandez ficou sozinho na sala, onde pôde constatar mais uma vez que esta família deveria passar dificuldades. Notou também nos sofás e na poltrona: eram velhos, encontravam-se rotos e sujos. Reparou ainda na estrutura da sala: apresentava-se modesta, tal como o resto da casa; tinha uma ornamentação simplicíssima, visto que a casa era de madeira; existia uma pequena estante de livros, também eles muito antigos, situada num canto da sala. O assistente tinha uma pequena ideia de tudo isto, já que todos os dias via e constatava casos completamente diferentes e até extremos.

      Foi precisamente no final deste pensamento que Dora acabava de chegar à pequena e humilde divisão. Trazia os seus cabelos cinzentos apanhados, deixando assim a sua cara com acentuadas rugas completamente à vista, o que dava uma inteira percepção da sua avançada idade. Iria no próximo ano fazer setenta e cinco anos de idade.             

      Iniciando a conversa, Dora mostrou-se surpreendida pelo facto de um assistente social estar ali, em sua casa, ainda para mais, para a ver. Desorientada perguntou a Hernandez o porquê daquela visita. O assistente respondeu de imediato dizendo que havia sido enviado pelo Dr. Sebastian. A avó de Juan compreendeu tudo aquilo e por fim agradeceu a ajuda dada por aquele homem que acabara de conhecer. Seguiu-se a primeira de muitas sessões para a reabilitação de Dora. Hernandez apenas aconselhava a avó do rapaz a fazer pequenos exercícios, com o intuito da melhoria de movimentos.

       Passadas algumas horas Hernandez foi-se embora, porém, deixando a promessa de voltar na tarde seguinte. Este cenário repetiu-se durante vários dias até que chegou a altura de aumentar o nível do exercício. Nada muito cansativo, até porque seria fatal, visto tratar-se de uma senhora um pouco idosa.

      E assim que se iam passando as manhãs, tardes e até noites. Fazia agora um mês desde a chegada do assistente. Realmente, pode-se dizer que foi ele o grande empreiteiro deste projecto. E pelos vistos, estava a dar resultado, uma vez que agora, Dora podia-se mover melhor e mais livremente.

      Juan, esse, continuava numa boa maré de resultados escolares e ainda melhorara substancialmente em termos futebolísticos. Considerado por todos como o melhor aluno e jogador da escola, um prémio atribuído ao aluno, designado como sendo o praticante que ilustra realmente este desporto. Por tudo isto, aliado à melhoria da avó, o rapaz estava bastante contente com a situação vivida.

      O tempo voava como uma águia num voo matinal, onde subtilmente procura alimento para as crias, inquietas pela sua chegada ao ninho. Estávamos já nos princípios do Verão, e por isso, o ano escolar chegaria ao fim. Este era sem dúvida o tempo mais adorado pelas crianças porque não teriam de estar nas aulas. O miúdo e a avó, por um lado, viam com bons olhos a chegada da estação quente, por outro lado, temiam cada minuto passado, pensando na pobreza e suas naturais consequências que alastravam fervorosamente. No entanto, nem tudo eram más notícias: Dora recuperara totalmente e apenas contava com três visitas semanais, por vezes não tendo nada a ver com a sua doença. Porém, este, encontrava-se, à medida que o tempo decorria, cada vez mais triste. Sabia que daí a pouco tempo teria de se separar de Juan e sua avó. Apesar do pouco tempo passado com esta pequena e humilde família, conhecia-os há muito, segundo o seu coração.

      Tal como o esperado, foi numa amena manhã, onde se ouvia o doce canto dos pássaros, empoleirados em cima de folhas, ramos e troncos, que Hernandez se despediu dos dois amigos. Consigo trazia as chaves da casa, emprestadas-lhe aquando a notícia das suas frequentes visitas. Entrou, sentou-se e já confortável, começou a falar:

Bem, parece que vou deixar de a vir ver! -esperou algum tempo, de modo a captar a atenção da senhora. Esta nada disse, e ele prosseguiu:

Pois é! Já lá vai quase um ano que vim bater-lhe à porta! - disse, escondendo uma lágrima teimosa preparando-se para sair do olho.

      Dora, detestando despedidas, pediu ao preocupado assistente para que chegasse junto de uma janela. Era pequena, mas tal como ela havia dito, tinha uma bela vista. Hernandez não percebia porquê, mas também não quis perguntar. Voltou a espreitar e novamente pôde constatar que através dela apenas se observava um muro alto e forte. Não dando tempo para qualquer questão, a avó do rapaz iniciou a conversa:

Meu amigo, estar-te-ás a perguntar o porquê de tudo isto? Interrogas-te  quando digo que esta janela é a mais bonita?

Sim. Não entendo, porque nada se vê daqui! Penso que existem outras mais belas!

Não concordo... isso era antes de te conhecermos! Tornou-se a mais bonita, desde o momento em que entraste na nossa casa. Esta janela expandiu-se e agora, podemos ver o que quisermos através dela. É o poder da imaginação e dos sonhos! Isto, aliado à amizade, transmite esperança, algo que não tínhamos até a tua vinda. E por isso estamos eternamente gratos. E dizendo isto, caiu no chão, imóvel e sem vida, presenteando-o com um sorriso de dever cumprido.

Publicado por ML às 16:46
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Imagem criada a partir de uma pintura de Kandinsky.

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