Sexta-feira, 28 de Abril de 2006

Sofia Lemos - 9ºC

Uma estrela brilhava mais forte do que nunca nessa noite fria de Inverno em que uma jovem ruiva a observava sem parar. Nos seus olhos reflectia-se o brilho incontestável da estrela e, ao mesmo tempo, a esperança da rapariga. Ela repetia vezes sem fim o seu desejo, pedia à estrela para o concretizar, pedia-lhe para que, mais cedo ou mais tarde, ela pudesse ver o seu sonho realizado. Pedia-o à estrela.

When you wish upon a star (Quando pedes um desejo a uma estrela)

Galadriel olhava pensativa para fora da janela, através das gotas de água que escorriam lentamente pelo vidro, distorcendo a imagem da aldeia.

As casas castanhas mergulhadas no mar verde das florestas, que as circundavam, eram uma prisão para qualquer um que, como Galadriel, tivesse uma imaginação sem fronteiras. Sempre que um forasteiro se aproximava da aldeia e todos os aldeões se escondiam, a jovem era a primeira a dar as boas vindas ao visitante, saindo de casa às escondidas e fugindo pelas sombras ao encontro de quem quer que fosse que lhe pudesse trazer histórias do exterior. A aldeia de Galadriel era das mais pequenas da região e encontrava-se isolada por ordem do rei que treinava lá os seus combatentes.

As casas amontoavam-se em volta do centro da aldeia, onde todas as noites se acendia uma fogueira e os anciãos contavam longas histórias aos mais jovens. Com uma altura superior à das casa dos plebeus, podia-se ver a alta torre branca da igreja, cuja cruz apontava para o infinito, e ainda o edifício da biblioteca, cujo andar inferior fora reservado para os estudos de técnicas de combate, e os superiores estavam destinados a todo o tipo de literatura, desde manuscritos de contos, a lendas locais, passando pelos livros que o reino distribuía, de tempos a tempos, com o intuito de deixar as pessoas mais conscientes do exterior das suas propriedades.

Makes no difference who you are (Não faz diferença quem sejas)

- Galadriel? Posso entrar? – perguntou uma voz masculina resgatando-a dos seus pensamentos.

- Claro, Garahan... – sorriu incentivando o jovem a entrar. Garahan era apenas um ano mais velho que Galadriel embora a sua altura a ultrapassasse por mais de dez centímetros; tinha olhos azuis como o céu e os cabelos loiros como o sol. – Trazes novidades?

- Queria falar-te sobre o que descobri na biblioteca... – respondeu enigmaticamente sentando-se de frente para a ruiva.

- Tu?! Na biblioteca?!

- Claro... Na biblioteca posso descobrir o que procuras, pois os livros contam-me coisas que ninguém sabe...

- Deixa-te de enigmas! O que descobriste? – perguntou abrindo ainda mais os olhos cor de mel.

Anything your heart desires (Qualquer coisa que o teu coração deseje)

- O teu maior sonho é sair daqui e conhecer o mundo, não é? – Galadriel anuiu com um sorriso. – Farias qualquer coisa para sair daqui? – ela voltou a acenar afirmativamente. Para que eram aquelas perguntas? – Viverias uma aventura comigo?

- Uma aventura?!

- Sei como sair, sei como conhecer o mundo, mas tens de confiar em mim... – propôs Garahan estendendo a mão.

- Conhecer o mundo?... Contigo?... – interrogou pensativa, passando a mão pelos longos cabelos ruivos. - Porque não? – sorriu dando a mão ao jovem que a fez sair do quarto.

Will come to you (Virá ter contigo)

Correndo por entre as gotas de água que caíam cada vez mais fortes magoando a pele de Galadriel, Garahan percorreu a aldeia desértica ao encontro do celeiro abandonado. A velha casa de madeira com telhado de colmo esperava-os de portas abertas, a palha amarela espalhada pelo chão formando um tapete confortável. O tecto tinha um buraco no centro, pelo que se sentaram encostados a uma das paredes, em silêncio, vendo o compasso rápido das gotas de água no chão do celeiro.

- Conta-me tudo! – pediu impaciente Galadriel, voltando-se para o amigo.

Garahan não respondeu. Levantou-se e encaminhou-se para a parede oposta, onde algum mobiliário jazia esquecido. Abriu cuidadosamente uma das gavetas de onde Galadriel viu sair uma traça incomodada com a luz fraca que a havia despertado.

- Encontrei isto há algum tempo, não sei se é o verdadeiro, mas tudo indica que sim...

- O verdadeiro quê?

If your heart is in your dream (Se o teu coração está nos teus sonhos)

- Uma janela para o mundo... – explicou retirando de dentro da gaveta pesada um espelho pouco maior do que um alguidar. Os poucos raios de sol que entravam dentro do celeiro e se direccionavam para o espelho brilhante numa tentativa de se reflectirem perdiam-se na sua face, não voltando a aparecer.

- O quê?!

- Deixa-me experimentar... Não o queria fazer sem ti... – murmurou como para não acordar o espelho, pegando em alguma erva e colocando o espelho no chão.

- É um espelho... Não podemos ver o mundo através dele!

- Talvez não ver o mundo... Mas visitá-lo...

No request is too extreme (Nenhum pedido é demasiado extremo)

Galadriel aproximou-se confusa. Garahan sempre gostara de lhe pregar partidas, mas desta vez parecia mesmo convencido de que aquilo iria funcionar. O jovem loiro baixou-se e passou a mão por cima do espelho.

- Sente... – sussurrou para Galadriel que se baixou e fez o mesmo, sentindo ar quente acariciar-lhe a mão. – Acertei na janela...

A ruiva olhou Garahan admirada; o que é que se passava?! Ele estava a ir longe de mais com aquela brincadeira... Garahan sorriu sob o olhar assustado de Galadriel e deitou as ervas sob o espelho.

When you wish upon a star (Quando pedes um desejo a uma estrela)

Galadriel gritou e afastou-se rapidamente do espelho ao ver que as ervas o haviam ultrapassado em vez de ficarem espalhadas na sua superfície.

- Eu explico-te antes de passarmos...

- Tu... Eu... passarmos?! – perguntou assustada recuando até ao centro do celeiro e deixando-se molhar pela água gelada da chuva.

As dreamers do (Como os sonhadores fazem)

- Calma... – pediu baixinho Garahan, aproximando-se de Galadriel e afastando-a do buraco no tecto. – No outro dia fui à biblioteca, só para passar entre os livros, talvez escolher um para te levar... Quando, na penumbra, ouvi alguém murmurar acerca do espelho. A voz da mulher parecia cansada, não me atrevi a fazer-lhe perguntas, mas percebi que ela escrevia num livro pequeno e deteriorado, numa página que ficara embranquecida pelo tempo. Ouvia murmúrios embora não os compreendesse a todos e, por isso, fiquei à espera que a senhora acabasse o seu trabalho ali. Ela terminou de escrever no livro, guardou-o no meio de uma prateleira e murmurou mais algumas coisas, um género de protecção ou assim... Depois foi só ir até lá, pegar no livro e entender o que a velha tinha escrito.

Fate is kind (O destino é simpático)

«Abri o livro na página correcta e percebi o que a senhora tinha escrito. Falava de um espelho, tinha a sua localização e as suas funções. Sorri perante aquilo, era aquele espelho que nos podia levar através do mundo, de nos levar a conhecer aquilo que sempre quisemos...

She brings to those to love (Ela traz a esses para amarem)

- Estás a dizer que... Estás a dizer que o espelho é uma passagem para o resto do mundo? Tal como uma janela aberta para os nossos sonhos? – perguntou esperançosa Galadriel, endireitando-se.

- Penso que sim... – disse-lhe Garahan calmamente, voltando a aproximar-se do espelho adormecido no leito de palha.

The sweet fulfillment of (A deliciosa recompensa)

Galadriel sorriu pensando em sair dali de uma vez por todas, pensando em conhecer o mundo, em ouvir novas histórias, conhecer novas culturas, novas línguas, viver novas aventuras...

Their secret longing (Do seu secreto desejo ardente)

- Para onde é que ele nos leva? – inquiriu levada pelo desejo de aventura.

- Esse é o problema... – respondeu nervosamente Garahan, travando dentro de si uma luta árdua entre a curiosidade e o receio.

Galadriel ia perguntar pelo livro, para tentar compreender o que se passava, quando um violento relâmpago cruzou o céu, e a sua energia se perdeu no vidro polido.

Like a bolt out of the blue (Como um relâmpago no azul)

Garahan olhava estupefacto para a superfície prateada, questionando-se se aquilo estaria correcto. Galadriel, por sua vez, fora tomada pelo medo que a havia paralisado de boca aberta e olhos esbugalhados, num grito mudo.

- Galadriel?! Estás bem?

A jovem desfaleceu, caindo desmaiada na carpete doirada de palha.

Fate steps in and sees you through (O destino passeia e vê através de ti)

- Por favor, acorda... – rogou Garahan molhando as mãos na água da chuva e passando--as ao de leve na pele branca da amiga. – Vá lá... Acorda...

Galadriel fechou os olhos ainda com mais força para depois os abrir lentamente. Sobre ela o céu escuro, que era visível através do buraco no telhado do celeiro, adormecido depois da tempestade, encontrava-se iluminado apenas por uma estrela, a estrela mais brilhante desde há uma semana naquele firmamento infinito.

When you wish upon a star (Quando pedes um desejo a uma estrela)

- Vamos? – perguntou a rapariga levantando-se. – Sei que é seguro...

Garahan sorriu. Ia viver a aventura da sua vida, ia conhecer o mundo, ia viver uma vida diferente da que lhe havia sido destinada; e tudo aquilo graças a Galadriel. Havia sido por ela que ele se passeara na biblioteca, havia sido pelo desejo desta de sair da aldeia que ele havia escutado atentamente a anciã, havia sido por esta que ele havia roubado o livro e procurado o espelho numa demanda impossível e seria por ela que ele o iria usar.

- Juntos – pediu Galadriel dando-lhe a mão.

E, sem pensar mais, saltaram para aquela janela sempre aberta para novos mundos e para novas aventuras.

Your dreams come true (Os teus sonhos tornam-se realidade)

Publicado por ML às 17:13
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Imagem criada a partir de uma pintura de Kandinsky.

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